BOLETIM PAPO RETO #01: Memória, clima e futuro na periferia
Inclusão produtiva, justiça climática, 12 anos de ativismo, nosso Centro de Memória e intercâmbio de cria: é a favela construindo o futuro!
Resenha de Cria
Durante muitos anos, falar sobre clima parecia um debate distante da realidade das favelas. Mas quem vive nesses territórios sabe que a emergência climática nunca foi assunto do futuro. Ela chega primeiro onde faltam infraestrutura, saneamento, moradia digna e presença efetiva do Estado.
Nas favelas e periferias, assim como nas comunidades rurais mais vulneráveis, o clima extremo deixa de ser uma projeção científica para se tornar experiência cotidiana. É a conta de luz que pesa mais por causa do calor, a chuva que destrói casas, a falta d’água que interrompe rotinas, a renda que diminui quando a produção agrícola é afetada. A crise climática encontra desigualdades históricas e as aprofunda.
O El Niño é um dos fenômenos que torna essa realidade ainda mais evidente. Ao prolongar secas no Nordeste, intensificar ondas de calor, alterar o regime de chuvas e pressionar a segurança alimentar, hídrica e econômica de milhões de brasileiros, ele revela que os efeitos da crise climática não são distribuídos de forma igual. Eles atingem primeiro e com mais intensidade aqueles que historicamente receberam menos investimento e proteção.
Ao longo da minha trajetória e do trabalho desenvolvido pelo Instituto Papo Reto, aprendi que justiça climática começa justamente por reconhecer essa desigualdade. Hoje dialogo com governos, universidades, empresas, organismos internacionais e lideranças comunitárias, mas continuo acreditando que algumas das respostas mais potentes nascem dos próprios territórios. As favelas não podem ser vistas apenas como espaços de vulnerabilidade. Elas são também lugares de inovação, organização comunitária e produção de soluções para um país que precisará aprender a conviver com eventos climáticos cada vez mais extremos.
O El Niño nos lembra que o clima não é neutro. Ele expõe as escolhas que fazemos como sociedade. Enfrentar seus impactos exige muito mais do que previsões meteorológicas. Exige investimento público, compromisso privado e a coragem de colocar favelas, periferias e o sertão no centro da agenda climática brasileira. Afinal, proteger esses territórios é fortalecer a capacidade do Brasil de enfrentar um futuro que já começou.
Raull Santiago
Diretor Executivo - Instituto Papo Reto
Direitos e Mobilização
1 Milhão de Oportunidade (1 MiO): A união entre o Instituto Papo Reto e o UNICEF, por meio da plataforma 1 Milhão de Oportunidades (1MiO), consolidou uma parceria estratégica para a inclusão da juventude periférica no mercado de trabalho. O projeto conectou adolescentes e jovens de 14 a 29 anos do Complexo do Alemão a oportunidades de estágio, aprendizagem, emprego formal e capacitação. Essa atuação conjunta transformou a favela em um polo de desenvolvimento, protagonismo e garantia de direitos.
Com a taxa de desemprego juvenil atingindo principalmente jovens negros e moradores de periferias, a iniciativa surgiu como uma resposta urgente e estruturada. Na prática, as ações combinaram oficinas de desenvolvimento, orientação de carreira e encaminhamento direto para vagas de trabalho em dois pontos estratégicos do território: na Vila Olímpica Vereador Jorginho da SOS, no Complexo do Alemão e na Arena Jovelina Pérola Negra, na Pavuna.
Essa parceria mostrou que investir na empregabilidade e no trabalho decente para os jovens é o caminho mais sustentável para reduzir as desigualdades do nosso território. Além disso, reafirmou que garantir o direito ao futuro passa, obrigatoriamente, pelo acesso a oportunidades reais.







Comuniclima
Viva a Serra da Misericórdia: No dia 23 de maio, o nosso parceiro Telhado Verde Agroecológico abriu as portas do seu espaço na Serra da Misericórdia para uma edição especial do “Viva a Mata 2026”. Junto com a Fundação SOS Mata Atlântica, realizamos uma manhã potente de trocas, afeto e consciência socioambiental. Para nós, discutir meio ambiente na favela é falar de pertencimento e de oportunidades para os nossos.
Acreditamos que a educação ambiental se transforma de verdade quando fortalece os vínculos comunitários e desperta sonhos desde cedo. Cada semente que os crias plantaram naquele dia é a certeza de que a nossa raiz tá forte para defender o território amanhã. É a favela germinando o futuro!
Horta Vertical PPRT: Na linha de frente da justiça socioambiental e do combate à fome na favela, a sede do Instituto Papo Reto passou por uma revitalização em um de seus espaços: a nova Horta Vertical, organizada e cuidada pela equipe do Telhado Verde Agroecológico. Essa tecnologia social otimiza o nosso espaço urbano para cultivar alimentos saudáveis e sem agrotóxicos, provando que a produção agrícola sustentável é plenamente viável nos becos e lajes do Complexo do Alemão.
A iniciativa é pilar fundamental do nosso Eixo Direitos Socioambientais, reafirmando que garantir a segurança alimentar e a autonomia da nossa gente é passo indispensável para enfrentar o racismo ambiental e os impactos da crise climática.


Memória, Tecnologia e Futuro
12 Anos Dando o Papo Reto: A nossa história quem conta somos nós! No primeiro trimestre de 2026 lançamos a pesquisa “12 Anos Dando o Papo Reto: Formas de Ativismo no Complexo do Alemão”. Esse estudo é a prova viva de que a favela não é apenas resistência; é inteligência coletiva, tática de sobrevivência e berço de soluções estruturais. Mais do que um simples documento, essa pesquisa é uma ferramenta poderosa de memória e de incidência política, pautada 100% no nosso autêntico “saber de cria”.
O relatório faz um mergulho profundo nas lutas históricas do Complexo do Alemão, resgatando as mobilizações desde os anos 2000 até às inovações que elaboramos no Instituto para defender a vida no território. Quando sistematizamos e publicamos nossas próprias tecnologias sociais, escancaramos para o mundo que a favela produz dados e conhecimento de ponta, disputando narrativas e políticas públicas de igual pra igual. É a nossa memória documentada para impulsionar e inspirar a nossa e outras organizações a continuarem inventando novas possibilidades de existir e de transformar o mundo.
Centro de Memória Popular Periférica: Ainda no primeiro semestre deste ano, demos início ao Centro de Memória Popular Periférica (CMPP)! Dar vida a essa ideia dentro da nossa sede é um marco histórico, provando que a favela não só resiste, mas guarda, conta e exalta a sua própria trajetória. Integrando o CMPP, abrimos as portas da Galeria Fotográfica Rodrigues Moura, uma homenagem a um dos pioneiros da imagem no Complexo do Alemão. Estreamos as nossas paredes com o peso das exposições de crias como Hector Santos (Alemão) e Karina Donaria (Maré). É a nossa imagem sendo eternizada pelos nossos, mostrando que cada clique é uma ferramenta contra o apagamento e a favor da potência da nossa gente.
Nosso corre pela memória não estaria completo sem exaltar o poder das palavras. Por isso, o CMPP também abraça a Biblioteca Otávio Júnior, batizada para homenagear em vida o nosso eterno Livreiro do Alemão, que encontrou na leitura a chave para salvar vidas e reescrever destinos. Esse cantinho não é apenas um amontoado de livros; é uma trincheira de sonhos e de possibilidades de futuro para a comunidade. Queremos que a leitura seja a porta destrancada para a nossa molecada construir novos mundos. Porque a gente sabe que na favela, preservar quem veio antes e munir a juventude com educação é a verdadeira transformação coletiva!








Protagonismo Periférico
Coletivo Não Tem Jeito: Entre os dias 18 e 25 de março, a nossa sede viveu uma imersão histórica de afeto, aprendizado e troca de saberes. Recebemos os parceiros do Coletivo Não Tem Jeito, diretamente da periferia de Caranguejo Tabaiares, em Recife, para um momento inesquecível de conexões pelo Rio de Janeiro. A galera conheceu de perto a atuação de várias ONGs parceiras no Alemão e ocupou a cidade em pontos marcantes como o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e a sagrada Pequena África. Viabilizada pelo apoio financeiro e institucional da Open Society Foundations, essa vivência provou que as potências das periferias brasileiras se conectam e se fortalecem quando caminham de mãos dadas.
Durante o tempo juntos tivemos outras atividades em nossa base, como rodas de conversa com a nossa Coordenadora de Pesquisa, Rachel Machado, para trocar sobre as formas de ativismo e resistência que o coletivo toca em Recife, além de uma formação com a nossa Diretora Financeira, Ana Paula Andrade, sobre planejamento e gestão de recursos. Quando compartilhamos ferramentas de gestão e multiplicamos as nossas tecnologias sociais, a gente descentraliza o conhecimento, fortalece a sustentabilidade do nosso corre e cria redes de solidariedade indestrutíveis. Isso são as favelas do Brasil mostrando que a transformação se faz junto!
“...Isso aqui não é brincadeira, não estamos brincando de fazer movimento social…estamos fazendo luta, chegando aonde o poder público não chega com os nossos direitos. Estamos levando educação, lazer e formação para nossa juventude. Então, eu saio daqui com a minha cabeça borbulhando de ideias que eu preciso colocar em prática lá…”
Danielle Lins, membra do Coletivo Não Tem Jeito






A Transformação se faz Junto!
O Instituto Papo Reto se move a muitas mãos e mentes. Para que a nossa inteligência continue disputando políticas públicas e a nossa sede continue aberta para apoiar as ações de coletivos parceiros, nós precisamos da sua parceria na gerência institucional.
Se você faz parte ou conhece algum coletivo/movimento de base que atua com Justiça Climática e/ou Segurança Pública, clique no botão abaixo e preencha o formulário da Pesquisa LabAtivismo.
Você empreendedor, quer entrar no nosso radar para possíveis parcerias? Clique no botão abaixo e inscreva-se no formulário.
Clique no botão abaixo e acesse a pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, realizada coletivamente pelo Instituto Papo Reto, Redes da Maré, Frente Penha, Instituto Raízes em Movimento, Fala Roça e A Rocinha Resiste.



